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| The Midinight Gospel |
- E então?
- Vai dar certo, confia
- É a quinta vez que dá errado e você fala isso
- Calma, dessa vez é verdade, 6 é meu número da sorte
- É a sexta vez que você escolhe um novo número da sorte
- Olha, se você colocar dessa forma é realmente difícil, mas tenta pensar no lado bom, se der errado, a gente tenta de novo, tem tipo, uns mil números aí pra me dar sorte ainda
- Infinitos né?
- O que?
- Infinitos números, você quis dizer que existem infinitos números da sorte ainda
- É, não, na verdade não, se passar do mil acho que eu não tenho tanta sorte assim
Ele amarrou com mais força a corda na bota, pegou impulso, fez o manual do jogador de basquete certinho, arremessou mirando a janela da nave, e errou. Seriam mais 20 minutos puxando a corda para uma nova tentativa.
- Posso jogar a próxima?
- Pode
- Sério?
- Sim
- Achei que ia ter mais resistência sua, que nem nas outras vezes
- É que 6 era realmente meu número da sorte
- Ah
- É...
- E quem decide isso?
- O que?
- O número da sorte?
- Bom, acho que você mesmo, sabe, você pega um número e escolhe, esse é meu número da sorte, da soooorte, assim, sabe
- Parece fraco, parece uma perspectiva fraca de uma crença não muito forte, algo que carece até mesmo de valor motivacional
- Ah sim, sei é um número muito fraco mesmo Júlia, eu devia ter escolhido 1 milhão, de cara, na lata, pegar e falar "é um milhão porra, uuuuuh, um milhão, chupa!" - Os argumentos dele ficavam fracos com o cansaço.
- Não é assim - Retomou Júlia, revigorada pelo estresse dele
- Discorra, dona do universo
- Pensa comigo, a gente escolhe um montão de coisa para acreditar o tempo todo, por mais cético que seja, não tem como você não pensar que algo completamente ilógico e sem relação alguma tenha acontecido por um motivo específico
- Como aquela vez que você fez a dança da chuva do Pequeno Urso porque não queria ir no aniversário do Rodriguinho naquele acampamento nojento? E coincidentemente choveu e você ficou insuportável o resto da noite gritando que era a "Favorita de deus", o "Gandalf de saia" e a "Moana da porra toda"
- Eu falei da Moana?
- Falou da Moana
- Caraca, não faz sentido, a Moana é a escolhida do Mar, ela não tem poderes com o clima, talvez eu tenha falado Maui, deus de ar e água, o semi-cara do lugar
- Você falou M-O-A-N-A
- Tá bom, tá bom, mas é um bom exemplo, a gente acredita nas coisas por que fomos feitos para acreditar, é isso que a gente faz, é nisso que somos bons, acreditar é uma parte importante do intelecto humano, vem acompanhada da capacidade pensar e criar coisas novas, de que adianta todo esse processo cognitivo se não tiver ninguém para acreditar nisso?
- Isso é sobre religião? Esse papo é sobre religião? Eu não vi chegando
- Não é sobre religião, é sobre criatividade, e portanto, a sua inerência a poder ser utilizada da forma que nós precisarmos, seja para mover multidões, acertar uma bota na janela da nave pra tirar a gente daqui, ou acreditar que existe uma vida melhor após a morte se a gente nunca acertar
- Ei, ei, calma, já disse que você vai jogar dessa vez
- E se eu não acertar? O que te faz pensar que essa corda não vai se romper enquanto a gente escala?
- Ela é uma boa corda, talvez isso?
- Sim, mas é velha, e uma bota não é um baita gancho né?
- Não, mas o que mais a gente pode fazer além de...
- Acreditar, isso ae, na Bota e na corda. Pedro elas são tão ilusórias quanto o número seis e a dança da chuva, não tem poder, a gente tem. Ou melhor, a gente acha que tem.
Pedro finalmente terminou de puxar a corda, Júlia se prepara para o arremesso
- E o que a gente faz então? Desisti se você errar?
- É uma opção... - O ar quente embaça o capacete dela
- Mas relaxa, eu sou a Moana da porra toda
Ela arremessa.

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