quinta-feira, 23 de abril de 2020

Eu sempre gostei de escrever diálogos

The Midinight Gospel

- E então?
- Vai dar certo, confia
- É a quinta vez que dá errado e você fala isso
- Calma, dessa vez é verdade, 6 é meu número da sorte
- É a sexta vez que você escolhe um novo número da sorte
- Olha, se você colocar dessa forma é realmente difícil, mas tenta pensar no lado bom, se der errado, a gente tenta de novo, tem tipo, uns mil números aí pra me dar sorte ainda
- Infinitos né?
- O que?
- Infinitos números, você quis dizer que existem infinitos números da sorte ainda
- É, não, na verdade não, se passar do mil acho que eu não tenho tanta sorte assim

Ele amarrou com mais força a corda na bota, pegou impulso, fez o manual do jogador de basquete certinho, arremessou mirando a janela da nave, e errou. Seriam mais 20 minutos puxando a corda para uma nova tentativa.

- Posso jogar a próxima?
- Pode
- Sério?
- Sim
- Achei que ia ter mais resistência sua, que nem nas outras vezes
- É que 6 era realmente meu número da sorte
- Ah
- É...



- E quem decide isso?
- O que?
- O número da sorte?
- Bom, acho que você mesmo, sabe, você pega um número e escolhe, esse é meu número da sorte, da soooorte, assim, sabe
- Parece fraco, parece uma perspectiva fraca de uma crença não muito forte, algo que carece até mesmo de valor motivacional
- Ah sim, sei é um número muito fraco mesmo Júlia, eu devia ter escolhido 1 milhão, de cara, na lata, pegar e falar "é um milhão porra, uuuuuh, um milhão, chupa!" - Os argumentos dele ficavam fracos com o cansaço.
- Não é assim - Retomou Júlia, revigorada pelo estresse dele
- Discorra, dona do universo
- Pensa comigo, a gente escolhe um montão de coisa para acreditar o tempo todo, por mais cético que seja, não tem como você não pensar que algo completamente ilógico e sem relação alguma tenha acontecido por um motivo específico
- Como aquela vez que você fez a dança da chuva do Pequeno Urso porque não queria ir no aniversário do Rodriguinho naquele acampamento nojento? E coincidentemente choveu e você ficou insuportável o resto da noite gritando que era a "Favorita de deus", o "Gandalf de saia" e a "Moana da porra toda"
- Eu falei da Moana?
- Falou da Moana
- Caraca, não faz sentido, a Moana é a escolhida do Mar, ela não tem poderes com o clima, talvez eu tenha falado Maui, deus de ar e água, o semi-cara do lugar
- Você falou M-O-A-N-A
- Tá bom, tá bom, mas é um bom exemplo, a gente acredita nas coisas por que fomos feitos para acreditar, é isso que a gente faz, é nisso que somos bons, acreditar é uma parte importante do intelecto humano, vem acompanhada da capacidade pensar e criar coisas novas, de que adianta todo esse processo cognitivo se não tiver ninguém para acreditar nisso?
- Isso é sobre religião? Esse papo é sobre religião? Eu não vi chegando
- Não é sobre religião, é sobre criatividade, e portanto, a sua inerência a poder ser utilizada da forma que nós precisarmos, seja para mover multidões, acertar uma bota na janela da nave pra tirar a gente daqui, ou acreditar que existe uma vida melhor após a morte se a gente nunca acertar
- Ei, ei, calma, já disse que você vai jogar dessa vez
- E se eu não acertar? O que te faz pensar que essa corda não vai se romper enquanto a gente escala?
- Ela é uma boa corda, talvez isso?
- Sim, mas é velha, e uma bota não é um baita gancho né?
- Não, mas o que mais a gente pode fazer além de...
- Acreditar, isso ae, na Bota e na corda.  Pedro elas são tão ilusórias quanto o número seis e a dança da chuva, não tem poder, a gente tem. Ou melhor, a gente acha que tem.

Pedro finalmente terminou de puxar a corda, Júlia se prepara para o arremesso
- E o que a gente faz então? Desisti se você errar?
- É uma opção... - O ar quente embaça o capacete dela
- Mas relaxa, eu sou a Moana da porra toda

Ela arremessa.











terça-feira, 21 de abril de 2020

Meu cachorro dorme o tempo todo, eu acho que ele sonha com alguém

Capa: Cidade dormitório - Freternidade-Terror

Na verdade eu não tenho um cachorro, então espero empatia para que me perdoem pelo click bait, afinal, eu não tenho um cachorro para me consolar. Mas, se serve de consolo, eu tenho dormido bastante, e acho que tenho sonhado com alguém, isso tá me assustando um pouco.

Começa sempre assim, comigo acordando a essa hora da tarde, com sono desregulado e todo desgraçado da cabeça. Eu sempre tive sonhos muito vívidos, por vezes lúcidos, uma soneca de 10 minutos são equivalente a horas no meu mundinho de Morfeu. Mr.Sandman , Mr.Sandman, give me a dream! Quantas vezes aqueles 5 minutinhos a mais na hora do almoço não me transportaram para 1834, na primeira revolução dos ciborgues dinossauros dos novos baianos. Isso é o normal, da época em que o mundo era normal.

Mas agora é diferente. A criatividade acabou, então os sonhos tem se repetido bastante, não em cenários ou situações, mas com a mesma pessoa, essa garota que eu nunca vi, que me assusta e me encanta na mesma proporção. No canto do olho, como figurante, num abraço apertado ou flutuando no teto, naquele dia que eu achei já ter acordado. O cabelo indiscutivelmente negro, e olhos sem cor, mas principalmente, principalmente, com um cheiro marcante demais para não reconhecer. Hoje eu tenho quase certeza que encontrei cabelo que não era meu na minha cama, e o guarda-roupa tem marcas de unhas muito afiadas.

O cheiro ainda não desapareceu também. Espero não estar apaixonado.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Contemplar

 


    

      Eu fui a alguns velórios recentemente, alguns, no plural mesmo. Mais do que havia ido até então num período tão curto de tempo. Em um deles tinha um torneira enchendo uma espécie de caixa d' água, balde, sei lá. Não sei também se estava enchendo ou esvaziando, não dava para saber. A água entrava em torrentes por cima, mas parecia sair de forma igual pelas rachaduras da lateral e do fundo. Enchendo ou esvaziando, enchendo ou esvaziando, enchendo ou esvaziando. Fiz mais amigos também, falei  muito e viajei ainda mais. Trabalhei, como trabalhei, não o bastante, mas bastante. Me peguei refletindo, sobre algumas coisas não muito relevantes e outras com potencial para destruir o mundo. A chatice das pessoas, a infinidade do universo, o significado da palavra Defenestrar.(pode pesquisar, você vai se chocar). Um dia vou refletir sobre o motivo de tanta reflexão, as longas noites olhando o céu da janela na estrada tem seu peso de culpa, o gosto musical repaginado também. Enchendo ou esvaziando? Abandonei um caminhão de preconceitos, alguns tão fundamentais a minha essência que me fizeram perder a estrutura, cair no chão e ver as coisas de um modo mais humilde. Me apeguei a outros, puro desvio de caráter. Bobeiras, difíceis de acreditar, daquelas que fazem todo o caminho dos neurônios, sinapses e tudo mais, e mesmo assim, ainda conseguem se formar como raízes na mente. Exercício diário de defenestração (procura, vai!). Pulei algumas etapas e me deixei sentir orgulho,bom e mal, daquele de bater o pé no chão e falar : Eu faço. Fiz as pazes com o fracasso, não por muito tempo, a presença dele continua angustiante, mas pelo menos é engraçado, as vezes, por que depois fica chato, muito chato. Mas também ensina, de uma forma pouco paciente. Não estou tão resolvido em relação a isso ainda, melhor prosseguir. Enchendo ou esvaziando, enchendo ou esvaziando, enchendo ou esvaziando. Vi um punhado de coisas que não pensava que ia ver tão cedo, e assumi algumas responsabilidades que precisava assumir, outras eu não precisava, mas assumi mesmo assim, o que fez bem e mal. Mais mal, mais bem, a conta não fecha, nunca vou aprender matemática. Mas posso aprender outras coisas, tipo falar. Como eu fiquei bom nisso? É bem diferente do que o meu eu adolescente complexado pensava, não é uma técnica, não é treinamento, é fluidez. Conhecer pessoas ajudou, deixar de conhecer outras também. Enchendo. A salada ainda não desce bem, os problemas de saúde começam a aparecer e os vícios de personalidade se firmam, é o olhar que eu não consegui devolver, a voz rouca que não saiu e a atitude que ficou no pensamento. Aquela  música incrível que eu nunca vou conseguir tocar e o quadro incrível que eu ainda não consigo pintar, é a preguiça, a chatice, o mau humor, o pessimismo, a ansiedade, a falta de boa vontade, aquele abraço que eu não dei, a ligação da minha mãe que eu não atendi e todas as vezes que eu ignorei tudo aquilo que eu mais devia prestar atenção. Esvaziando. É contemplar, não apenas o pôr do sol, o vento nas arvores e a natureza. É tudo junto, do jeito que foi feito pra ser, as pessoas boas e ruins, os momentos incríveis e aqueles que me dão vontade de morrer. Meu quarto escuro e meu quarto escuro, meu trabalho e meu trabalho, os amigos e os amigos, eu e eu mesmo. É defenestrar (última chance), gritar, ficar puto, puto mesmo, de brigar e sair na mão, fazer as pazes, tomar cerveja, passar mal e vomitar. É encher e esvaziar, e esquecer essas duas palavras, encher ou esvaziar,encher ou esvaziar, encher ou esvaziar, encher ou esvaziar, encher ou esvaziar, encher ou esvaziar,encher ou esvaziar,encher ou esvaziar, encher ou esvaziar! É escrever sem dar parágrafo, terminar uma carta sem dizer adeus, é contemplar o balde, enchendo e esvaziando, ao mesmo tempo. Caralho. 

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Roteiro do Fracasso

      



     Existe uma gratificação estranha no fracasso, aquela manhã chuvosa do dia seguinte da maior derrota da sua vida, quando você não precisa nem programar o despertador já que nada vai te fazer  levantar, então, não. Não precisa. Os sonhos são um refúgio interessante nas primeiras horas, uma chance de transcender a carne por um tempo e descansar. Mas não dura para sempre, uma hora você tem que acordar. As costas começam a rejeitar a maciez do colchão, os olhos buscam luz e uma nova corrente de pensamentos faz o moinho girar na sua mente, até que já é tarde demais. O cérebro está funcionando de novo, começa o segundo passo.
    Esse é o segundo ato, Ato II, ou meio da história. Aquela parte estranha entre o começo e o fim de alguma coisa, onde tudo se desenvolve. Ocupa cerca de 55% de obras balanceadas nas estruturas clássicas. É quando seu pé descalço encosta no chão pela primeira vez no que pareceram milênios sem andar, pisar com o pé esquerdo e cair no chão. Depois do primeiro passo, vem o segundo, o terceiro, quarto, quinto, sexto, sétimo, oitavo, décimo, e as vezes décimo primeiro, dependendo da distância do banheiro. Um bom começo é a escova de dentes, modéstia a parte, começar com isso é uma ideia genial por dois motivos: dependendo de como foi a noite anterior, sua higiene bocal pode ter sido a última coisa na qual pensou antes de se afundar em travesseiros. E dois, é fácil. É uma tarefa com um objetivo claro, um pouco de sucesso logo de manhã é algo que não pode ser dispensado. Não nessa situação. 
    O problema vem depois, essa é a parte em que o personagem se espatifa num muro de realidade bem sólido. O que fazer agora? Se tivesse ganho a luta, agora seria aproveitar o cinturão. Se tivesse vencido o mago das trevas, agora era só restabelecer as convenções do mundo da magia. Se tivesse conquistado a garota, quem sabe um belo café da manhã na cama? Essa sensação do chão sumindo de repente é o que dói. Tudo simplesmente fica pior, muito pior , como parecia que não podia ficar, você cai no poço mais e mais fundo até sentir a água gelada do fundo dele. Sem sequer poder respirar. Mas então, como todo enredo básico de um episódio de Power Ranger, você aprende algo, pode ser um poder novo, uma nova formação do Megazord ou algo mais pessoal e chato. A preparação para uma revanche começa a se formar, bem tímida, mas nítida.
     O bom de se estar no fundo do poço, diferente do que se imagina, não é o impulso. principalmente se ainda tem água nele. Não acredita, dê um salto de dentro de uma piscina, Sr. Pernas Hidráulicas. O melhor de se estar lá, é o silêncio. Nada como ter tempo para pensar, deixe tudo que precisa ser remoído, ser remoído. Grite, você está a uns 40 palmos debaixo da terra, ninguém vai te ouvir, e se ouvirem. Bom, você está a 40 palmos debaixo da terra, não é  seu maior problema. Repense, fique de pé outra vez, analise o lodo das pedras. Sente de novo, dê outro berro. Deixe o tempo passar, encare a luz lá em cima, comece a imaginar como seria ver o sol novamente, depois de tanto tempo olhando as mesmas pedras é impossível não ter percebido qual é menos escorregadia. Tente escalar pela primeira vez. Caia. Não beba muita vodca. Dê outro berro, mais alto ainda. Escale uma segunda vez, caia. Escale outra vez, esquece o tempo para descansar, você já teve o bastante. Escale de novo, vê as marcas na parede? É até onde tinha chegado antes, da pra ir mais longe agora, só um pouquinho. Se sinta muito mal e aguente, ninguém pode ser uma criança chorona para sempre, pode? Merthiolate não dói, quebrar a coluna sim, são 40 palmos, não pare agora. A luz é forte, cega seus olhos, as mãos doem, e o seu estômago ronca de fome. Mas você conseguiu. Grite alto o bastante para mover um continente, corra pelos campos verdes, sinta o calor de uma boa xícara de café, compre um livro novo, escute Beautiful Loser do Bob Seger. Bem vindo de volta, esse é seu clímax.


Fracasse outra vez.






domingo, 29 de maio de 2016

[OFF TOPIC] #001 - Todo mundo odeia o post de origem

         Olá, primeiramente, me desculpe por isso. De verdade, esse é aquele momento constrangedor em que nos vemos pela primeira vez, não sei como você chegou até aqui, você também não sabe o que eu estou fazendo aqui, mas acabamos nos trombando nesse isolado calabouço da internet. E se está lendo esse texto, preciso ser sincero com você. Esse é o post de origem. Aquele que todo mundo odeia.



         Eu realmente queria evitar tudo isso, pular a balela da apresentação, do "Oi, tudo bem?"; "Vem sempre aqui?"; "Pode deixar pelo menos os meus documentos antes de levar a carteira?". Mas nenhuma grande amizade, romance ou relação de dependência emocional e química, respira, começa sem uma devida apresentação.
          Meu nome é Luiz Antonio Ferreira Junior,  Luiz A.F. Jr na hora de dar autógrafos, por sorte nunca tive essa oportunidade. Nesse espaço-tempo específico, tenho 18 anos e um problema terrível de auto-estima misturado com necessidade de autoaprovação. Apesar da Rinite alérgica, os dias frios e chuvosos são meus favoritos. Acho dinossauros legais, mas não tanto quanto raposas, é um lance muito pessoal, pode ser algo relacionado as patinhas. Quando tinha 6 anos de idade afundei todos os meus dentes de leite na beirada da pia da cozinha. Quando tinha 14 tive um caso grave de coração partido e concluí que afundar os dentes foi algo muito pior. Só consigo terminar de degustar um sorvete se estiver bebendo um refrigerante, não me pergunte o porquê, a razão para isso deve ser algo em torno de 2 bolas de sorvete para 250 ml de coca cola. Sou péssimo em matemática. Amante da Literatura, casado com a História. De gostos musicais peculiares e desconexos como tudo que já arrisquei fazer. Desenhei quadrinhos de leitura no sentido oriental, já programei um site que nunca vai ir pro ar, e já fracassei mais vezes do que deveria para alguém com menos de duas décadas de existência. Aprendi muito com tudo isso, principalmente com o site, HTML é uma linguagem tão temperamental quanto o Aramaico.  Por último, e de importância relativa, meu signo é Touro, mas eu não acredito nisso. Eu não acredito em muita coisa.

      No espaço de tempo entre uma piada ruim, porém engraçada, e outra ruim, apenas ofensiva. Eu (tento)acabo fazendo algumas coisas, escrevo contos, faço animações, gravo curta metragens, rabisco ilustrações. A ideia desse blog é uma mistura estranha dos meus pensamentos e realizações, aprendizados e essencialmente fracassos. Se tiver algum tempo para perder, gaste a maior parte dele com as redes sociais, se sobrar algo eu posso te ajudar. Espero que gostem, que não esperem periodicidade e que sejam pessoas gentis com suas mães que limparam sua bagunça a vida inteira e agora só querem compartilhar uma foto do crochê delas no (Rede Social datada). Obrigado por estarem aqui, meu ego e meu guaxinim de estimação agradecem.



Mensagem útil pro meu eu do futuro:

Respire lentamente e tente não fazer movimentos bruscos, dragões sentem o cheiro do medo.