Existe uma gratificação estranha no fracasso, aquela manhã chuvosa do dia seguinte da maior derrota da sua vida, quando você não precisa nem programar o despertador já que nada vai te fazer levantar, então, não. Não precisa. Os sonhos são um refúgio interessante nas primeiras horas, uma chance de transcender a carne por um tempo e descansar. Mas não dura para sempre, uma hora você tem que acordar. As costas começam a rejeitar a maciez do colchão, os olhos buscam luz e uma nova corrente de pensamentos faz o moinho girar na sua mente, até que já é tarde demais. O cérebro está funcionando de novo, começa o segundo passo.
Fracasse outra vez.
Esse é o segundo ato, Ato II, ou meio da história. Aquela parte estranha entre o começo e o fim de alguma coisa, onde tudo se desenvolve. Ocupa cerca de 55% de obras balanceadas nas estruturas clássicas. É quando seu pé descalço encosta no chão pela primeira vez no que pareceram milênios sem andar, pisar com o pé esquerdo e cair no chão. Depois do primeiro passo, vem o segundo, o terceiro, quarto, quinto, sexto, sétimo, oitavo, décimo, e as vezes décimo primeiro, dependendo da distância do banheiro. Um bom começo é a escova de dentes, modéstia a parte, começar com isso é uma ideia genial por dois motivos: dependendo de como foi a noite anterior, sua higiene bocal pode ter sido a última coisa na qual pensou antes de se afundar em travesseiros. E dois, é fácil. É uma tarefa com um objetivo claro, um pouco de sucesso logo de manhã é algo que não pode ser dispensado. Não nessa situação.
O problema vem depois, essa é a parte em que o personagem se espatifa num muro de realidade bem sólido. O que fazer agora? Se tivesse ganho a luta, agora seria aproveitar o cinturão. Se tivesse vencido o mago das trevas, agora era só restabelecer as convenções do mundo da magia. Se tivesse conquistado a garota, quem sabe um belo café da manhã na cama? Essa sensação do chão sumindo de repente é o que dói. Tudo simplesmente fica pior, muito pior , como parecia que não podia ficar, você cai no poço mais e mais fundo até sentir a água gelada do fundo dele. Sem sequer poder respirar. Mas então, como todo enredo básico de um episódio de Power Ranger, você aprende algo, pode ser um poder novo, uma nova formação do Megazord ou algo mais pessoal e chato. A preparação para uma revanche começa a se formar, bem tímida, mas nítida.
O bom de se estar no fundo do poço, diferente do que se imagina, não é o impulso. principalmente se ainda tem água nele. Não acredita, dê um salto de dentro de uma piscina, Sr. Pernas Hidráulicas. O melhor de se estar lá, é o silêncio. Nada como ter tempo para pensar, deixe tudo que precisa ser remoído, ser remoído. Grite, você está a uns 40 palmos debaixo da terra, ninguém vai te ouvir, e se ouvirem. Bom, você está a 40 palmos debaixo da terra, não é seu maior problema. Repense, fique de pé outra vez, analise o lodo das pedras. Sente de novo, dê outro berro. Deixe o tempo passar, encare a luz lá em cima, comece a imaginar como seria ver o sol novamente, depois de tanto tempo olhando as mesmas pedras é impossível não ter percebido qual é menos escorregadia. Tente escalar pela primeira vez. Caia. Não beba muita vodca. Dê outro berro, mais alto ainda. Escale uma segunda vez, caia. Escale outra vez, esquece o tempo para descansar, você já teve o bastante. Escale de novo, vê as marcas na parede? É até onde tinha chegado antes, da pra ir mais longe agora, só um pouquinho. Se sinta muito mal e aguente, ninguém pode ser uma criança chorona para sempre, pode? Merthiolate não dói, quebrar a coluna sim, são 40 palmos, não pare agora. A luz é forte, cega seus olhos, as mãos doem, e o seu estômago ronca de fome. Mas você conseguiu. Grite alto o bastante para mover um continente, corra pelos campos verdes, sinta o calor de uma boa xícara de café, compre um livro novo, escute Beautiful Loser do Bob Seger. Bem vindo de volta, esse é seu clímax.
Fracasse outra vez.
