sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Contemplar

 


    

      Eu fui a alguns velórios recentemente, alguns, no plural mesmo. Mais do que havia ido até então num período tão curto de tempo. Em um deles tinha um torneira enchendo uma espécie de caixa d' água, balde, sei lá. Não sei também se estava enchendo ou esvaziando, não dava para saber. A água entrava em torrentes por cima, mas parecia sair de forma igual pelas rachaduras da lateral e do fundo. Enchendo ou esvaziando, enchendo ou esvaziando, enchendo ou esvaziando. Fiz mais amigos também, falei  muito e viajei ainda mais. Trabalhei, como trabalhei, não o bastante, mas bastante. Me peguei refletindo, sobre algumas coisas não muito relevantes e outras com potencial para destruir o mundo. A chatice das pessoas, a infinidade do universo, o significado da palavra Defenestrar.(pode pesquisar, você vai se chocar). Um dia vou refletir sobre o motivo de tanta reflexão, as longas noites olhando o céu da janela na estrada tem seu peso de culpa, o gosto musical repaginado também. Enchendo ou esvaziando? Abandonei um caminhão de preconceitos, alguns tão fundamentais a minha essência que me fizeram perder a estrutura, cair no chão e ver as coisas de um modo mais humilde. Me apeguei a outros, puro desvio de caráter. Bobeiras, difíceis de acreditar, daquelas que fazem todo o caminho dos neurônios, sinapses e tudo mais, e mesmo assim, ainda conseguem se formar como raízes na mente. Exercício diário de defenestração (procura, vai!). Pulei algumas etapas e me deixei sentir orgulho,bom e mal, daquele de bater o pé no chão e falar : Eu faço. Fiz as pazes com o fracasso, não por muito tempo, a presença dele continua angustiante, mas pelo menos é engraçado, as vezes, por que depois fica chato, muito chato. Mas também ensina, de uma forma pouco paciente. Não estou tão resolvido em relação a isso ainda, melhor prosseguir. Enchendo ou esvaziando, enchendo ou esvaziando, enchendo ou esvaziando. Vi um punhado de coisas que não pensava que ia ver tão cedo, e assumi algumas responsabilidades que precisava assumir, outras eu não precisava, mas assumi mesmo assim, o que fez bem e mal. Mais mal, mais bem, a conta não fecha, nunca vou aprender matemática. Mas posso aprender outras coisas, tipo falar. Como eu fiquei bom nisso? É bem diferente do que o meu eu adolescente complexado pensava, não é uma técnica, não é treinamento, é fluidez. Conhecer pessoas ajudou, deixar de conhecer outras também. Enchendo. A salada ainda não desce bem, os problemas de saúde começam a aparecer e os vícios de personalidade se firmam, é o olhar que eu não consegui devolver, a voz rouca que não saiu e a atitude que ficou no pensamento. Aquela  música incrível que eu nunca vou conseguir tocar e o quadro incrível que eu ainda não consigo pintar, é a preguiça, a chatice, o mau humor, o pessimismo, a ansiedade, a falta de boa vontade, aquele abraço que eu não dei, a ligação da minha mãe que eu não atendi e todas as vezes que eu ignorei tudo aquilo que eu mais devia prestar atenção. Esvaziando. É contemplar, não apenas o pôr do sol, o vento nas arvores e a natureza. É tudo junto, do jeito que foi feito pra ser, as pessoas boas e ruins, os momentos incríveis e aqueles que me dão vontade de morrer. Meu quarto escuro e meu quarto escuro, meu trabalho e meu trabalho, os amigos e os amigos, eu e eu mesmo. É defenestrar (última chance), gritar, ficar puto, puto mesmo, de brigar e sair na mão, fazer as pazes, tomar cerveja, passar mal e vomitar. É encher e esvaziar, e esquecer essas duas palavras, encher ou esvaziar,encher ou esvaziar, encher ou esvaziar, encher ou esvaziar, encher ou esvaziar, encher ou esvaziar,encher ou esvaziar,encher ou esvaziar, encher ou esvaziar! É escrever sem dar parágrafo, terminar uma carta sem dizer adeus, é contemplar o balde, enchendo e esvaziando, ao mesmo tempo. Caralho. 

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